A briga que ninguém esperava.
Por Eduardo Weisberg
Presidente da ABIS
Agosto de 2026
Quem diria que um remédio viraria concorrente direto do seu sorvete favorito?
Pois é. As famosas canetas emagrecedoras — Ozempic, Mounjaro, Wegovy e companhia — estão mudando não só o corpo de quem usa, mas também o carrinho de supermercado. E o setor de sorvetes, que sempre foi sinônimo de prazer e indulgência, começou a sentir o baque.
O Brasil já é um dos países que mais adotaram esses medicamentos no mundo. Segundo a Scanntech, 5,5% da população brasileira já usa GLP-1, acima da média global de 3,7%. E o crescimento foi de impressionantes 239% só no primeiro trimestre de 2026 comparado ao ano anterior. Ou seja: não é moda passageira. É uma mudança estrutural no comportamento alimentar do país.
Quem usa essas canetas não sente só menos fome, sente menos vontade de comer de forma geral. O tal do “ruído alimentar”, aquela vozinha na cabeça que negocia o tempo todo com o próximo snack, doce ou impulso, simplesmente diminui.

Os números são claros: 61% dos usuários relatam redução significativa do apetite geral, 49% passaram a fazer escolhas mais saudáveis e 47% aumentaram o consumo de proteínas. Fora os 35% que perderam totalmente o interesse por alimentos gordurosos e doces.
A pesquisa da PwC (PricewaterhouseCoopers) nos Estados Unidos, feita com mais de 3 mil consumidores em maio de 2026, escancara o impacto: 61% dos usuários de GLP-1 compram menos doces e sobremesas. Lá, o gasto com supermercado caiu 5,5% por domicílio entre quem aderiu ao tratamento.
E não é só nos EUA. Aqui no Brasil, o estudo da Scanntech projeta que o crescimento do uso de GLP-1 pode reduzir em 0,49% ao ano o volume total de alimentos vendidos nos supermercados. O tombo é maior em categorias como chocolate (-0,72%), biscoitos (-0,63%), refrigerantes (-0,55%) e petiscos (-0,82%).
E o sorvete está no meio do furacão. Como produto açucarado, calórico e associado ao prazer, ele é um dos primeiros itens a serem cortados (ou reduzidos) por quem está em tratamento ou faz uso deliberado da caneta.
A estimativa mais realista, cruzando os dados disponíveis, é de uma queda entre 5% e 10% no consumo per capita de sorvetes entre usuários ativos de GLP-1. No volume total do mercado brasileiro de sorvetes — estimado em R$ 17 bilhões em 2026, isso representa uma pressão de contração de 0,3% a 0,6% ao ano. Pode não parecer muito, mas é um mercado que historicamente só crescia. E o pior: a tendência é acelerar conforme mais pessoas aderirem ao tratamento.
O mercado de açúcar já deu o alerta. O preço do açúcar bruto (Sugar No. 11) caiu 29% em 12 meses, atingindo o menor nível em cinco anos. O Brasil, maior exportador mundial da commodity, já sente no bolso: o preço da saca de 50 kg de açúcar cristal em São Paulo recuou para R$ 98,14; menor valor desde outubro de 2020.
Aqui vai a parte interessante: o consumidor não quer largar o sorvete. Ele quer um sorvete diferente.

A tendência mais forte de 2026, segundo a Mintel, é o fim da fronteira entre “guloseima” e “alimento funcional”. Quando o assunto é sorvete, o brasileiro não quer mais escolher entre sabor e saúde. Ele quer os dois.
E os dados mostram que a indústria já está correndo atrás. Sorvete proteico é o segmento que mais cresce, 6,3% ao ano. 88% dos consumidores brasileiros acham a adição de proteína ao sorvete uma boa ideia, segundo estudo científico publicado na ScienceDirect. Sorvetes com probióticos, zero açúcar, ricos em fibras e até substitutos de refeição estão saindo do nicho para o convencional e 23% dos consumidores brasileiros já priorizam alegações de baixo ou zero açúcar em sobremesas e sorvetes, segundo a Innova Market Insights.
O perfil que mais usa canetas emagrecedoras no Brasil é mulher, 25 a 34 anos, renda mensal entre R$ 22 mil e R$ 32 mil. Exatamente o mesmo público que as marcas de sorvete mais querem conquistar. Coincidência? Nenhuma.

O novo consumidor está pedindo Sorvetes com proteína (whey ice cream deixou de ser coisa de academia), porções menores e controladas (35% dos usuários de GLP-1 pedem porções menores a preços proporcionalmente menores. Mini potes, palitos individuais, formatos que não gerem desperdício) benefício funcional real (probióticos para a saúde intestinal, fibras para saciedade, proteína para recuperação muscular). Zero açúcar sem perder sabor (ninguém quer sorvete que parece remédio). A experiência indulgente precisa ser preservada. Sorvete matinal (energia), sorvete noturno (relaxamento), sorvete pós-treino. O consumo não precisa mais se limitar ao fim de semana à tarde.
E o melhor, a maioria dos consumidores estaria disposta a pagar mais por sorvetes funcionais. Ou seja, quem inovar não só sobrevive mas pode até ganhar margem.
No fim das contas, a briga não é entre canetas emagrecedoras e sorvetes. É entre sorvetes ANTIGOS e sorvetes NOVOS.
O mercado de sorvetes tradicional, baseado em açúcar, gordura e porções generosas, vai continuar perdendo espaço. Mas um novo mercado está se abrindo — o de sorvetes que entregam prazer e funcionalidade, que cabem na nova realidade de apetite reduzido, que fazem sentido na rotina de quem prioriza saúde sem abrir mão do prazer.
As canetas emagrecedoras não vieram para acabar com o sorvete. Vieram para forçar a indústria a reinventá-lo. E, sinceramente, talvez seja a melhor coisa que podia acontecer.

Reinventar-se e crescer cada vez mais é o meu desejo para toda a cadeia produtiva desse maravilhoso alimento: SORVETE.

