O ano será definido por uma dualidade marcante: o entusiasmo sazonal da Copa do Mundo e das eleições num ambiente econômico de crédito restrito e cautela no consumo.
Por Eduardo Weisberg
Presidente da ABIS
Dezembro de 2025
Para empresas brasileiras de sorvetes e alimentos, o sucesso dependerá da capacidade de capturar momentos de celebração, enquanto gerenciam custos operacionais elevados.
A principal tendência para o ano é o chamado consumo substitutivo.
Com o orçamento das famílias pressionado pelo endividamento e pelos juros, o consumidor tende a reduzir gastos em bens de alto valor (como eletrônicos ou vestuário de luxo) para priorizar experiências de lazer imediato e de menor custo unitário, como alimentos e bebidas.
No setor de alimentos, espera-se uma migração do consumo fora de casa para o consumo doméstico. As famílias devem se reunir com maior frequência para acompanhar os jogos da Copa do Mundo, o que impulsiona categorias de indulgência, como sorvetes, snacks e sobremesas prontas.

Diferente de outros setores do varejo que sofrem com a queda de fluxo, a indústria de alimentos é uma das grandes vencedoras do evento, mas enfrenta desafios logísticos: em dias de jogos da seleção brasileira geram picos extremos de consumo de itens de conveniência e celebração. Sorvetes e sobremesas geladas ganham relevância como opções de acompanhamento para reuniões sociais.
O calendário repleto de feriados nacionais em dias úteis, somado à duração ampliada do torneio, exige um planejamento de estoque rigoroso para evitar rupturas ou custos excessivos com fretes de emergência.
Com partidas ocorrendo em horários que podem coincidir com o fim do expediente ou noites no Brasil, o setor de delivery e e-commerce de alimentos deve registrar volumes superiores aos períodos normais.
Também o ambiente de negócios será impactado pela volatilidade institucional típica de anos eleitorais. A renovação de grande parte do Legislativo e a disputa presidencial, geram incertezas sobre a condução futura da política econômica, o que mantém o custo do crédito elevado durante quase todo o ano.
O gasto público elevado mantém a percepção de risco-país alta, o que pode pressionar o câmbio e, consequentemente, o custo de insumos importados para a indústria de alimentos.

O alto nível de comprometimento da renda com dívidas de curto prazo (cartão de crédito) reduz a margem para compras impulsivas, forçando as empresas a serem mais agressivas em promoções e no valor agregado dos produtos.
Para navegar em um ano de alta volatilidade e consumo seletivo, as empresas devem focar em eficiência e adaptabilidade.
Cuidar da gestão financeira e liquidez, devido às altas taxas de juros, o caixa deve ser tratado como uma ferramenta de defesa. Evite a tomada de crédito para capital de giro recorrente; prefira utilizar reservas próprias para financiar operações sazonais durante a Copa.
Adapte seu Portfólio durante a Copa do Mundo. Invista em embalagens maiores (“tamanho família”) para sorvetes e alimentos, focadas no consumo em grupo durante as transmissões dos jogos. Posicione produtos de sobremesa como uma recompensa ou lazer de baixo custo, capturando o orçamento que o consumidor deixou de gastar em itens mais caros.
Se possível, fortaleza os canais digitais e Delivery. O varejo físico pode sofrer queda de circulação durante os jogos. Ter uma presença forte em aplicativos de entrega e canais digitais é essencial para atender o consumidor que prefere não sair de casa nos dias de evento.

Quanto ao estoque utilize inteligência de dados para antecipar a demanda de acordo com o calendário da Copa e os feriados nacionais. O excesso de estoque imobiliza capital caro, enquanto a falta de produto resulta em perda de vendas em um dos períodos de maior consumo do ano.
Quanto ao cenário político, mantenha a guarda alta em relação a mudanças bruscas no câmbio que possam afetar os custos de produção. Estratégias de proteção de preços com fornecedores podem ser necessárias nos meses que antecedem as eleições.
Finalizando, em 2026, o sucesso das empresas brasileiras de sorvetes e alimentos não será medido apenas pelo crescimento bruto, mas pela capacidade de atravessar o desafio da volatilidade com a saúde financeira preservada.
O ano exige um equilíbrio delicado aproveitando a euforia e os picos de demanda da Copa do Mundo, enquanto se protege o negócio contra a retração do consumo gerada pelo cenário fiscal e eleitoral.
As empresas que adotarem uma gestão baseada em dados, diversificarem seus canais e mantiverem um planejamento de longo prazo estarão melhor posicionadas não apenas para sobreviver à instabilidade, mas para capturar a fatia de mercado de concorrentes menos preparados.
Em última análise, 2026 será o ano em que a maturidade da gestão financeira se tornará o diferencial competitivo mais valioso para garantir a sustentabilidade da operação em 2027 e além.

