Desafios e Caminhos para a Resiliência!
Por Eduardo Weisberg
Presidente da ABIS
Agosto de 2025
Gostaria de trazer para nossa reflexão um tema que toca diretamente a estratégia de crescimento de um setor querido por todos nós: o de sorvetes no Brasil. A tarifação de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos importados, incluindo itens alimentícios, acendeu um sinal de alerta significativo. Mesmo que o sorvete brasileiro não seja um de nossos maiores carros-chefes de exportação para os EUA, qualquer aumento tarifário pode reverberar em nossa competitividade e no planejamento de expansão das empresas. É fundamental que analisemos os possíveis impactos e, mais importante, como podemos minimizá-los.
Diante desse cenário, diversos desafios se desenham. Primeiramente, um aumento tarifário de 50% torna nossos sorvetes exponencialmente mais caros para o consumidor americano, o que naturalmente dificulta imensamente a concorrência com produtos locais ou de outros países que não enfrentam essa barreira. Isso pode inviabilizar a continuidade de vendas para quem já exporta e tornar a entrada de novas marcas brasileiras no mercado dos EUA um desafio quase intransponível. Consequentemente, mesmo que o volume de exportação para os EUA não seja massivo, a interrupção ou diminuição dessas vendas representa uma perda real de receita e de oportunidades de crescimento para as empresas exportadoras, forçando aquelas que planejavam expandir para esse mercado a revisar suas estratégias, talvez perdendo investimentos já feitos em pesquisa ou adequação de produtos.

Além disso, esse cenário impulsiona uma necessidade urgente de diversificação de mercados. Para muitas empresas que já enxergavam os EUA como um mercado estratégico ou em potencial, a tarifa as obriga a buscar rapidamente outras opções, o que pode consumir tempo e recursos valiosos, além de potencialmente levar a decisões apressadas ou a investimentos em mercados menos lucrativos. E não para por aí: há um efeito cascata em nossa cadeia de valor. Uma redução nas exportações, ainda que indireta, pode impactar a demanda por matérias-primas e insumos utilizados na produção de sorvetes aqui no Brasil, afetando produtores de leite, frutas e outros ingredientes. Por fim, a incerteza gerada por tais tarifas pode até desmotivar as empresas a investir em novas linhas de produtos focadas em exportação ou em melhorias de capacidade produtiva, retardando a inovação e tornando a rentabilidade futura de certos produtos bastante incerta.
No entanto, nem tudo está perdido. Para mitigar esses impactos e transformar um obstáculo em uma oportunidade, é fundamental que o setor adote uma postura proativa. Uma estratégia crucial é a intensificação da prospecção e entrada em outros mercados promissores, como países da América Latina, Europa (com foco em nichos específicos) e Ásia, investindo em estudos de mercado para identificar nações com acordos comerciais favoráveis ou menor concorrência tarifária. Também é inteligente focar em produtos de valor agregado e nicho: desenvolver e promover sorvetes com ingredientes brasileiros únicos, como frutas amazônicas, guaraná e cupuaçu, ou com apelos de saúde (zero açúcar, sem lactose, vegano), mirando segmentos premium onde o preço é menos sensível e o consumidor busca exclusividade e qualidade superior.

Internamente, é mandatório otimizar custos e buscar eficiência. Revisar processos produtivos para aumentar a eficiência e reduzir despesas operacionais garante que o produto permaneça competitivo mesmo com margens menores, e negociar com fornecedores de matérias-primas e embalagens pode trazer melhores condições. Fortalecer o mercado interno é igualmente vital, investindo em marketing e distribuição dentro do Brasil para aumentar o consumo doméstico de sorvetes e explorar novas regiões ou canais de venda ainda não explorados.
A colaboração e a ação conjunta são igualmente importantes. O setor deve trabalhar em conjunto com a ABIS (Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes), e órgãos governamentais (Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Agricultura) para monitorar a situação, buscar diálogo diplomático e possíveis negociações. Compartilhar informações e melhores práticas entre as empresas fortalecerá a resposta coletiva ao desafio. Por fim, inovar em canais de distribuição e fortalecer as marcas é uma excelente via. Explorar modelos de negócios diretos ao consumidor (D2C) ou parcerias com plataformas de e-commerce, se aplicável, pode contornar custos de distribuição tradicionais. Fortalecer a marca Brasil e as marcas individuais das empresas, construindo uma reputação de qualidade e autenticidade, pode compensar parcialmente o aumento de preço.

Em suma, o cenário de tarifas elevadas imposto pelos EUA exige que o setor de sorvetes brasileiro demonstre resiliência e uma notável capacidade de adaptação. A chave para superar esse momento será a diversificação de mercados, a inovação contínua em produtos e processos, e uma abordagem estratégica e colaborativa, transformando um potencial obstáculo em uma oportunidade para um crescimento ainda mais sustentável.
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